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domingo, 23 de março de 2025

Helsinque - fevereiro 2025

HELSINQUE – FEVEREIRO 2025 A capital finlandesa foi uma grata e imensa surpresa. Pensei que ia encontrar uma cidade sem cor e sem vida, como é o resto da Finlândia, mas encontrei o oposto. Moderna preservando bem o passado, alegre, vibrante, movimentada e silenciosa. Alegre. Apesar do tempo miserável em 150 tons de cinza, névoa e chuva. Já estive nas outras capitais nórdicas, favoritando Kopenhagen e Estocolmo; Oslo legal pero no mucho e a pequena e charmosa Reykjavík no coração, lugar onde já estive duas vezes e voltaria sempre. Dinamarca, Suécia, Noruega e Islândia são países belos e interessantes. A Finlândia, que já foi parte da Rússia, já evoca a imensidão vizinha e o tédio infinito de um lugar sem contrastes. Diversidade de plantas perto do zero, só dois ou três tipos de pinheiros, neve no inverno e muita água no verão. O povo é tão sem graça quanto a paisagem e apesar dos altos níveis de civilização, não é um lugar que inspire paixões. Tudo, como definiu o brilhante Alain de Botton, é good enough. Foi neste espírito sombrio que terminei uma viagem chata pela Lapônia, com minha primeira vez em Helsinque. O bom de esperar o pior é encontrar algo bem melhor que provou que eu estava errada em relação a cidade. A começar pela arquitetura moderna sensacional: teatro de Ópera e Ballet, biblioteca, museu Kiasma, a sala de concertos Musikkitalo entre outros. No lado mais clássico e europeu, a praça da estação de trem é linda, com sua arquitetura única, uma versão local da art nouveau, chamada nacional romantica. O principal museu de arte , o Ateneum deslumbra pelo acervo de peso e qualidade da curadoria. A própria estação de ferroviária central é magnífica, ladeada por um belo teatro e outros prédios da mesma linha arquitetônica. Tudo muito harmônico e coerente. É uma coisa admirável para uma paulistana acostumada ao caos construtivo de São Paulo, em que nada combina ou faz sentido. Em Helsinque as construções são por estilo, por grupos coordenados e ao mesmo tempo “naturais”, sem parecer coisa tediosa e planejada. Na praça do Ateneum dois hotéis se destacam por arquitetura, história, serviço e conforto, com restaurantes e bares muito bons. O NH Collection e o Radisson Blu são escolhas sem erro para hospedagem central e confortável. Lembrando que a Finlândia é um dos países mais caros do mundo, com menos serviços de hotelaria que já vi, mesmo para padrões escandinavos. Porteiros, maleteiros, garçons, recepcionistas, concierges e camareiros, faxineiros são escassos. Ganha-se até prêmio (drinque grátis) se optar por limpeza do quarto não diária. Um pouco cansativo para o meu gosto... As áreas portuárias, as orlas do Golfo da Finlândia lembram uma Estocolmo menor. Tudo caminhável, acessível e prazeroso e desnecessário dizer, seguro e limpíssimo. As balsas de luxo que cruzam as águas em direção a Estocolmo ou Tallinn são um programão, bem como o Museu do Design, onde os artistas da vanguarda finlandesa dão um show de bom gosto e inovação. O setor gastronômico é excelente e o estrelado Olo garante uma degustação perfeita. Principalmente no setor peixes e frutos do mar, doces nem tanto. Deixe as sobremesas para o Karl Fazer Café ou melhor ainda, o Engelberg, cujos bolos e tortas e confeitos finos são uma festa para os olhos e paladar. Desnecessário dizer que com a genética russa, o mau tempo e tantas confeitarias boas, boa parte da população está acima do peso, principalmente as mulheres. Mas como turistas esquecemos a balança e nos aprofundamos muito nas delícias que são os cookies finlandeses, especialmente os de pecan da Espresso House. Quase tão inesquecíveis quanto os de Takayama, no Japão. Vale ir pelo menos uma vez ao restaurante Savotta, cujo salão principal evoca as casas mais ao estilo russo, as velhas casas de chá dos países Bálticos, bem quentinhas e aconchegantes. O hamburguer de alce com batatas rústicas e molho de frutas vermelhas é divino e a sobremesa de mação quente idem. Pena que vinhos sejam tão caros no país, cuja taxação é uma das mais altas do mundo. Nada é perfeito... E para quem não for ao Savotta, ali pertinho, na confeitaria belga Neuhaus, além dos chocolates fabulosos, os donos vendem as tais tortinhas de maçã. Comida é na certa um dos pontos altos de Helsinque, talvez só perdendo para as artes cênicas, com suas óperas, ballets e concertos de qualidade impressionante. O Tennispalasti, por exemplo, além de 14 cinemas top abriga um museu de respeito em arte contemporânea e auditório para pequenos concertos. Vários deles grátis, como ocorre diariamente no Musikkitalo. País rico tem dessas... Com tanta oferta cultural, gastronômica, arquitetônica, tanta segurança e civilização, Helsinque vale a visita. Mais de uma vez, tem muito, mas muito o que visitar. No verão melhor ainda, pois as estufas estão repletas de flores coloridas e os passeios se tornam mais fáceis, bem iluminados pelo raro sol nórdico e mais coisas estão abertas. Já no final do inverno foi bárbaro conhecer Helsinque, imaginem no final da primavera até começo do outono? Voltaria! Detalhe final: a cidade tem um dos aeroportos mais gostosos do planeta. Gostoso aplicado a aeroporto? Pois é, um verdadeiro shopping tranquilo e silencioso, a praça de alimentação mais quietinha e agradável que existe. Só em Helsinque mesmo... São Paulo, 23 de março de 2025

MICO LAPONIA - ROUBADA EM FEVEREIRO DE 2025

MICO LAPONIA – FEVEREIRO 2025 Já havia estado na Lapônia finlandesa há mais de 11 anos e gostei muito da experiencia Ártica, no inverno. Desta vez, também no inverno, mas já mais perto da primavera, detestei. Por quê? Afinal a Finlândia é um país bonito e desenvolvido, supostamente o mais feliz do mundo segundo recentes pesquisas. De fato, o país é bem legal, mas o pacote-de-seis-noites-pega -trouxa que adquirimos através de agencia brasileira, é ridículo. Mais de mil euros por noite para ver o seguinte: 1. Zoológico quase em bichos. 2. Passeio em trenó puxado por renas anêmicas e sem chifres por 10 minutos. 3. Passeio em trenó individual vagabundo puxado por cães vira-latas locais. Com o turista conduzindo, portanto, potencialmente perigosos pois os cães podem disparar com os incautos inexperientes junto. 4. Hotéis vendidos como 4 estrelas e mal eram dignos de duas. 5. Apenas uma noite em hotel legal, para tentar ver a Aurora Boreal. 6. Refeições sempre insossas, confusas e frias em bandejões genéricos beira de estrada. 7. Passeio ridículo em moto de neve, a 10 por hora, para só ver árvores idênticas e neve. Um tédio... 8. Ônibus pequeno e desconfortável. 9. Suposto serviço de maleteiros-fantasma. 10. Castelo de gelo indigno do nome, com quase nada dentro. Por que pagar tanto, mais a passagem aérea, a distancia brutal do Brasil, para ver e fazer isso? Resposta fácil: é o hype infinito das redes socias, as fake News e o emburrecimento geral que domina o planeta. Influencers convencem milhões de pessoas a irem aos países nórdicos no inverno para verem as maravilhas da luzes da Aurora Boreal. Que de fato são uma maravilha, mas não há garantia alguma de que se vá e veja. São fenômenos naturais imprevisíveis e os turistas gastam, nada veem e pagam uma fortuna pelo acima citado. Os inflencers e a Meta ganham e os trouxas perdem. Em toda minha e extensa experiencia com viagens, já fiz 5 nos últimos 12 anos em que tive oportunidade de ver as luzes. Só vi em uma, por acaso, no outono, na Islândia. Que vale qualquer coisa, por ser um país fascinante. Em qualquer estação do ano. A Finlândia, não é. Fuja! Houve highlights no Mico? O curto passeio no quebra gelo Samo, foi muito interessante e nossa guia espanhola era culta, simpática e organizada. O museu Articum, na deprimente Rovaniemi, é também interessante, mas sequer incluído no pacote-vazio. Vale mais de 1000 euros por dias? Vocês decidem... São Paulo, 23 de março de 2023

sábado, 15 de março de 2025

24 HORAS EM TALLINN

24 HORAS EM TALLINN A bela capital da Estônia, onde já havia estado há mais de 7 anos, me atraiu de volta para uma rápida e deliciosa estadia. Estando próxima, do outro lado do Mar Báltico, Golfo da Finlândia; uma balsa ultra moderna vinda de Helsinque é uma maneira perfeita de se passear pelo centro histórico de Tallinn. A coisa funciona assim: pela internet compra-se a passagem, várias opções de horários e em um pouco mais de 2 horas, já se está do outro lado. Numa balsa que mais parece navio de luxo, com bares, restaurantes e lojas. Tudo limpo, fácil e eficiente. O processo de embarque e desembarque é muito organizado e não se perde tempo em filas e procedimentos burocráticos. 0 passeio é totalmente viável indo e voltando no mesmo dia e é uma boa ideia se o turista estiver um tanto entediado em Helsinque... O porto é perto do centro histórico, dá para ir a pé e hospedagem de apenas uma noite no moderno Radisson Collection, no meio do caminho, ajudou muito. Como também uma indicação de restaurante do Guia Michelin, bom e barato. O Härg é moderno e bem decorado, a comida excelente e os preços razoáveis. Grata surpresa em dia cinzento, chuvoso, ventoso e gelado do inverno semi-russo (a cidade encontra-se a menos de 400 quilômetros da russa São Petersburgo). Assim, munida de forças e combustível etílico, voltei a caminhar pelas ruas de contos de fadas de Tallinn. Voltei a me encantar com a arquitetura, o estado de conservação, as casinhas pitorescas, belas igrejas e marzipans suculentos desta parte da cidade que é uma verdadeira casa de bonecas. Á noite, ópera, é claro. A Flauta Mágica, de Mozart, é trilha sonora parceira de um lugar tão encantador. No dia seguinte, volta fácil a Finlândia. Amei Helsinque, mas cortei um dos meus quatro dias lá, para voltar a um lugar do coração, aonde fui muito feliz em minha primeira estadia nos adoráveis Países Bálticos. Foi um passeio-nostalgia, aquele tipo de lugar que você gosta, mas pela distância acha que nunca mais vai retornar. Voltei e gostei de novo. E torço por estes três pequenos países que temem a terrível Rússia vizinha, em tempos de guerras iminentes. Principalmente pela Estônia, um dos alvos principais do louco ditador russo. São Paulo, 15 de março de 2025.

sexta-feira, 14 de março de 2025

ALGUMAS HORAS EM MADRID - FEVEREIRO 2025

ALGUMAS HORAS EM MADRID – FEVEREIRO 2025 Escolhi escala em Madrid a caminho da fria e escura Rovaniemi, Finlândia, no mês passado e não podia ter feito opção melhor, pois o sol e a alegria da capital espanhola animaram o desanimo do inverno nórdico. Check-in no Meliá Barajas, bem perto do aeroporto e metro fácil até o centro, grande trunfo da principal porta de entrada da Espanha. São 12 kms fáceis e rápidos, não há necessidade de mofar em aeroporto, coisa invariavelmente inútil e tediosa. O centro de Madrid é lindo, perfeitamente caminhável, bem sinalizado e uma passada rápida pelo enorme Museo del Prado (exposições temporárias são sempre uma maneira genial de conhecer uma ínfima parte de gigantes como Louvre e Metropolitan, por exemplo) e delicioso almoço acompanhado de vinho branco da uva verdejo, ali ao lado, ao ar livre em pleno inverno, no Mandarin Oriental é um pacote perfeito. Para quem quer mais museu o Thyssen Bornemiza é na frente do hotel e do Prado. Outro trunfo de Madrid é ser uma cidade grande, cosmopolita e interessante sem intimidar pelo tamanho e oferece muito num centro imponente, mas aconchegante e encantador ao mesmo tempo. O comércio é maravilhoso, mas em poucas horas e ópera pela frente, só comprei um divino e pesado turrón de yemas tostadas com cerejas e enlouqueci no Museo del Jamón e minha eterna paixão pelos presuntos espanhóis que foram meu combustível principal ao percorrer os fantásticos 800 quilômetros do Camino de Santiago há mais de 20 anos. Gosto de comida espanhola, dos clássicos como paella e crema catalana, mas em geral os restaurantes não são facilmente decifráveis como na Itália, por exemplo. Ou mesmo França e Portugal. Vale sempre olhar o cardápio fora do restaurante, quando houver, ou fazer uma rápida pesquisa na internet. Desta vez vi uma casa transadinha, modernosa e quase sentei numa mesa. Felizmente, o gerente se apiedou de mim e explicou de cara que o estabelecimento só servia miúdos, coisa que abomino. Em Barcelona, por exemplo, existem vários lugares especializados em ouriços ou lesmas do mar. Portanto, todo cuidado é pouco... Os presuntos e os torrones, bem como incontáveis outras guloseimas líquidas e sólidas estão na parte mais antiga do centro, perto do Palácio Real e do Teatro Real, este último, meu destino noturno para assistir uma versão moderníssima do tradicional clássico russo Eugene Oneguin. Depois do deleite visual, gastronômico e cultural, volta ao Meliá para umas poucas horas de sono até o voo do dia seguinte. Parada perfeita no longo percurso Brasil-Europa. Olé! São Paulo, 14 de março de 2025

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

VIAGEM DE TREM NAPOLI A ZURICH - FEVEREIRO 20215

Viagem de trem pela Itália – Fevereiro 2025 Napoli, Roma, Bolonha e Milão. Parada final: Zurich Há um ano me encantei com a beleza natural e loucura histórico-social de Napoli e sempre quis voltar. Voltei, desta vez com meu marido e fiz as mesmas coisas do ano passado, com execução do museu MADRE. Creio que quando se gosta muito de um lugar, o que se quer mesmo é revisitá-lo, antes de tudo. Mesmas caminhadas, teatro, tours de ônibus panorâmico, mesma pizzaria maravilhosa (fomos a uma modernosa também, mas não tão boa quanto a clássica). Mesmo sol ameno de inverno e mesmo passeio atordoante pelas ruínas de Pompéia. Desta vez de trem, sem pressa, conhecendo outro lado da antiga cidade, experiencia que completou minha primeira visita. Na certa voltaria uma terceira vez, pois Pompéia guarda tesouros e mistérios que valem muitas visitas. Consegui finalmente, apreciar de bem perto a delicadeza em mármore que mais parece tule, do Cristo Velado na Capela Sansevero. Sem multidões, em paz e calma. Depois, trem rápido a Roma, onde também alcancei outro feito histórico-turista, que é visitar a Galleria Borghese, que valeu a espera. Também logrei provar o melhor sorvete de Roma, numa gelateria mal localizada e feiosa, cujos produtos são mesmo divinos. Fassi, não se esqueçam. Perto da estação Termini em Roma. Fui também ao restaurante Alfredo Alla Scrofa, que é o outro Alfredo que se diz o genuíno, do prato de mesmo nome. Tanto este último como o Il Vero Alfredo, são ótimos, caros e lotados. Vale muito, pois o fettuccine que só leva manteiga e um caminhão de parmesão ralado, é uma iguaria dos deuses. Infelizmente, meu tempo em Roma foi prejudicado pelo único dia completo ser uma segunda feira, quando a maior parte das atrações esta fechada. Sem problemas: Roma é eterna. Eu não sou, mas espero ardentemente que possa voltar. Depois Bolonha, que eu não conhecia. Amei o centro histórico repleto de arcos e galerias, a catedral, as lojas de comida, os restaurantes lindinhos tipo a Osteria Del’ Vicolo, o museu que exibia uma mostra do louco e genial Ai Wei Wei, as vibrações jovens de tão antigo lugar, suas importantes universidades e já uma pegada de Itália mais séria, mais fria, mais ao Norte. Também fiquei muito pouco, uma noite não dá para nada... Parada semi -final, Milão. Cidade que é a minha menos querida da Itália, entre as principais. Sóbria e elegante, falta o tempero italiano, falta sal e molho de tomate. Logico que abriga o Teatro Alla Scalla que é divino e onde assisti uma ópera com duração de 5 horas que passaram como se fosse apenas 1. A comida é soberba em seus risotos, costeletas e panetones. A Pinacoteca Brera é majestosa e vale muito ser visitada. Já a recém inaugurada “parte moderna” em outro Palazzo ali pertinho, por enquanto não exibe acervo ou mostras temporárias dignas do nome. Só hype mesmo... A estação de trem de Milão é imponente e de lá parti a Suíça em lindo trajeto beira-lagos e grande silencio. Afinal, já era Suíça e nada da muvuca italiana típica. Viagens de trem são uma benção de paz e conforto, só são problemáticas para quem quer fazer compras e tem malas enormes e/ou múltiplas. Se o objetivo é curtir o lugar e levar só as lembranças de sua memória e principalmente de seu coração, nada bate o trem. Talvez navios... São Paulo 17 de fevereiro de 2025.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

SICÍLIA DE CARRO - JANEIRO E FEVEREIRO 2025

SICÍLIA DE CARRO – JANEIRO E FEVEREIRO 2025 Começando por Palermo, a capital da bela ilha italiana. Quatro noites perfeitas nesta cidade bonita, alegre, vibrante e super interessante. Hospedagem no Mercure Centro foi uma feliz escolha por ser excelente custo-benefício, localização, quartos grandes e ensolarados. A três quadras da praça do monumental Teatro Massimo, o lugar é uma festa, sem ser barulhento; milagre em qualquer grande cidade italiana. A praça Giuseppe Verdi é o coração de Palermo, pois o grande teatro, além de produções contínuas de alta qualidade, é icônico por ter sido cenário de um assassinato espetaculoso em suas escadarias centrais, na trilogia O Poderoso Chefão. Músicos de rua tocam o tema principal da linda trilha sonora de Nino Rota periodicamente e a experiencia é emocionante, inesquecível. Pertinho dali, também na praça, existe outro teatro, o Al Massimo, com produções de primeira linha. Assisti Oliva Denaro, um monólogo clássico da literatura feminista italiana do século vinte. Isso, claro, sem falar do cinema com bar ali mesmo, onde assisti ao louquíssimo Emília Perez, sorvendo um Aperol Spritz durante a projeção. Só na Itália mesmo... Numa das várias ruas que começam ou terminam na praça Verdi, uma infinidade de restaurantes, lojas, igrejas, bares, confeitarias, monumentos, museus; aquela salada italiana deliciosa de comércio, gastronomia e história que faz do país sempre uma viagem divertidíssima e fácil. Para mim, tudo é fácil na Itália: o idioma, a comida, a simpatia das pessoas, bons acessos entre outros fatores. Claro que dirigir nestas cidades não é para os fracos de espírito. Voamos de Zurich a Palermo, aproveitamos a cidade a pé e de Uber e no último dia alugamos um carro para conhecer outros lugares. Sair de Palermo para estradas é relativamente fácil. Em Palermo, o grande atrativo histórico está na área da Catedral e do Palácio Real, ambas magníficas construções dos idos de 1100, no inusitado estilo árabe-normando, marca registrada da Sicília. Para uma experiencia arquitetônica ainda mais rica, um Uber a Monreale, bairro mais afastado de Palermo, oferece vistas esplendorosas da cidade e do mar, com direito a outra igreja no dito estilo. Uma curta e agradável viagem de trem, bate e volta de Palermo, é à cidadezinha 70km dali Cefálio. O lugar é um encanto de história e natureza, do Duomo vale o trajeto, os frutos do mar com vista idem e uma caminhada energizante de três ou quatro horas ao topo da Rocca de Cefalú, maravilhosa. Exercício, vistas, ruínas, vulcões. Tem de tudo de maneira fácil e prazerosa. No inverno, sol e poucos turistas, temperaturas amenas. Próxima etapa, O Vale dos Templos em Agrigento e antes uma parada na misteriosa Erice, cujo mistério reside em construções de pedra sombrias e vazias, um aspecto de vilarejo fantasma com uma igreja pequena e simples no tal estilo árabe-normando, uma das mais bonitas da Itália. Com direito a castelo, fortaleza, ruas calçadas com pedras originais, desafiando qualquer sapato, à la Paraty. O frio, o vento, o inverno contribuem para a experiencia-Erice ser coisa de filme de terror. Janelas sempre fechadas, tudo muito limpo e bem cuidado. Mas não se vê vivalma... Onde estarão os moradores? De quem são aqueles lares impecáveis e sem vida? Sensacional! Já no Vale dos Templos, instalados na Casa di Mammi, guesthouse chique e bem decorada, nos deslumbramos com os enormes templos greco romanos, bastante bem preservados em meio a um parque verde e bem organizado. Horas de caminhada por ruinas amarelas do que era uma cidade próspera e interessante. Lista UNESCO de patrimônio da Humanidade. Na sequência, Ragusa, Noto e Siracusa, que já conhecíamos. Valeu voltar e aproveitar melhor estes lugares tão especiais, de importância histórica inigualável e geografia desafiadora, principalmente em Ragusa, um labirinto extremamente íngreme de construções acinzentadas. Noto vale um dia, sem hospedagem lá, só visita mesmo e em Siracusa e Ragusa a dica é hospedagem fora dos centros históricos, para espaços mais generosos e estacionamento para os que tem veículos. E o imperdibilíssimo de Siracusa é o Parque Arqueológico Neapolis, lugar de extraordinário interesse. Grande, bem cuidado e estruturado, uma espécie de Inhotim, Hakone e Pompéia embalados para viagem, uma maravilha de história, arte e preservação. Até outubro de 2025 exibindo as magistrais esculturas de Mitoraj, artista que tem obras espalhadas por uma gigante mostra temporária em sítios arqueológicos pela Sicília. O Gran Finale foi em Catania, a segunda maior cidade da ilha. Só valeu pelas vistas do Etna nevado, embasbacantes. O bar- restaurante do rooftop do hotel Palace UNA, excelente, por sinal, oferece este panorama dos deuses pareado a ótimos quartos e comida. O resto não compensa, pois Catania é feia, suja, perigosa e quebra o clima de paz e encantamento das paradas anteriores. Fuja! Comer na Sicília, claro é um dos chamativos principais a qualquer turista e a situação “não comer bem” é inexistente. Tudo é bom, farto, suculento, bonito. Em Palermo, fomos duas vezes a um restaurante pequeno, administrado por uma família, a Osteria Al Cancelletto. Típico, simples, delicioso e não turístico. A confeitaria dentro do Convento de Santa Catarina (Chiesa di Santa Caterina d’Alessandria) é uma perdição, particularmente os pralines, tipo “docinho de festa de casamento” brasileiros. Meu Deus, só orando... Por sinal e adicionalmente, a praça dos acepipes acima citados inclui o Teatro Bellini e outras duas igrejas encantadoras. Por isso amo Palermo. O Liska em Cefalú tem vista mar, tartare de camarão e um carbonara com guanciale de comer de joelhos. Além do tiramissu num copo gelado. Noto segue forte nos sorvetes da Pasticceria Candiano – destaque para o de avelãs carameladas -e em Siracusa comemos muito bem no pequeno e despretensioso La Putia delle Cose Buone. Almoço de raviólis ao pesto de pistache, lulas gigantes e mais tiramissu, um vício recente e incurável... E o que dizer dos vinhos, que tornam o passeio ainda mais inebriante? Literalmente! Nero d’Avola e Etna Rosso são carros-chefe nos tintos e Grillo nos brancos. Uvas sicilianas desta parte da Itália tão perto da costa africana, dos mafiosos, da história grega, de Malta. Pobre se comparada ao resto do país, mas encantadora em sua singularidade. São Paulo, 12 de fevereiro de 2025

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

BERLIM - JANEIRO 2025

BERLIM – JANEIRO 2025 Voltei a capital alemã 24 anos após minha primeira e única visita. Como da inicial, me maravilhei com a grandiosidade, importância histórica, modernidade e o efeito fênix da cidade. Infelizmente, fiquei só três dias, tempo ridiculamente curto para um lugar que oferece tanto. Museus maravilhosos, praças, monumentos, lições de política ao vivo no Reichstag, sede do governo alemão, cenário musical infinito, teatros, cinemas, lojas, caminhadas, tudo é superlativo. Berlim não é bonita como outras capitais europeias, não tem o charme de Hamburgo, ou o fator chique de Munique; de um certo modo, por ser sede do governo de uma das maiores economias do mundo, o “fator Brasília” torna as coisas um tanto burocráticas e impessoais em alguns setores da cidade. Mas os parques, o verde infinito do Tiergarten, o lindo e limpo rio Spree que serpenteia por todo lado, os bairros alternativos, a irreverência da East Side Gallery e a imponência sóbria do Brandenburg Tor, compensam a construção padronizada em cinza e bege da burocracia moderna. E é justamente esse mix que faz de Berlim uma das cidades mais fascinantes do mundo: é uma cidade universal, que “conversa” com vários públicos, com várias tendencias, que acomoda burocratas, diplomatas, hippies, direitistas e comunistas, gente vazia e elegante de cabeça oca, bregas tirando selfies até em lugares dedicados a milhões de falecidos, crianças, velharia, um oceano de opiniões e tendencias, raro de se ver tão concentrado e de maneira tão pacífica numa cidade que já foi símbolo da crueldade máxima, de um horror como o da época nazista. Hoje é o oposto, um exercício de paz e liberdade. Em meu tempo limitado em Berlim, visitei e me enterneci com as obras de Gerhard Richert na novinha Neues Nazionalgalerie, prédio leve de Mies van der Rohe, onde o grande artista alemão tem quatro obras e salas exclusivas para suas genialidades sobre campos de concentração: Birkenau. Imperdível, bem como o Museu Judaico e o Memorial do Holocausto. São visões, olhares alemães sobre o ocorrido na Alemanha. Sóbrio, triste, verdadeiro; homenagens realistas e secas sobre fatos inegáveis e imperdoáveis. O que é bonito, pois o que não pode ser negado, não pode ser perdoado. E, muito menos, esquecido. Os berlinenses não pedem perdão: admitem, documentam e tentam não repetir o monstruoso erro. Por enquanto, está dando certo. Do bom da vida, do lado alegre, os maravilhosos concertos na genial Philarmonie e na Konzert Haus. Almoço clássico de Wiener Schnitzel no Lutter e Wegner, drinques deliciosos no bar em frente, fazendo hora para mais música de qualidade, olhando para a beleza monumental da Gendarmenmarkt, uma das praças mais estonteantes da Europa. Por ali também, tempo para comprar confeitos apetitosos e bem apresentados na confeitaria Rausch. Inclusive bombons Dubai, tão em moda hoje em dia. Desta vez, o que mais aproveitei foi o passeio ao longo do trecho mais longo do que restou do Muro de Berlim. São 1.3 quilômetros de muro, pinturas bem interessantes ao longo dele, uma parte beira-rio, outra colada em dois prédios de alto padrão, fazendo um efeito bizarro de protesto contra a especulação imobiliária mundial, que quer até “gourmetizar” um pedaço de história como é o Muro e o sofrimento e indignidade causado para tantos; os berlinenses como a principal vítima deste verdadeiro “apartheid” alemão. Caminhar ao longo do Muro, observar, fotografar e analisar cada pintura ao longo dele, faz com que uma ida e volta de quase três quilômetros de extensão, sejam inesquecíveis. Uma experiencia única, só Berlim. Talvez agora, recém-inaugurado, tinindo de novo, a atração máxima da metrópole seja mesmo o Humbolt Fórum, um tipo Louvre multiuso, alojado no que foi o Castelo de Berlim. A construção é tão linda, tão branca, tão majestosa e tão difícil de descrever, que só indo e conferindo. É o que farei num futuro próximo onde pretendo ficar uma semana na cidade, além de um tempinho em Colônia e Leipizg. Assim fechando com chave de diamante meu período alemão. Como o mundo é grande e a minha curiosidade maior ainda, o tempo urge nos meus 69 anos e tenho que priorizar. Aceito sugestões! Zurich, 06 de janeiro de 2025.